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O USO DE PARÂMETROS DIGITAIS NA PRODUÇÃO ARTESANAL


Muito tem se falado sobre o design paramétrico, baseado em algoritmos, ou sobre máquinas de fabricação digital como as impressoras 3D e as CNC. Para alguns, o futuro da produção de objetos se direciona forte e exclusivamente para o uso dessas tecnologias inovadoras. Num contexto em que a indústria tradicional e a produção em massa parecem cada vez mais desatualizadas e indesejáveis, a fabricação digital aparece como uma alternativa que permite produzir peças customizadas a um custo cada vez mais reduzido. Ao mesmo tempo, a ascendência dessa abordagem parece acontecer junto a iniciativas que priorizam, pelo contrário, um retorno às raízes, à produção artesanal. No meio desses dois direcionamentos se coloca o trabalho inovador do coletivo chileno gt2p – great things to people, cujo lema é, em suas palavras, “promover novos encontros entre tecnologias digitais e a riqueza local expressada por materiais e técnicas tradicionais”.
Comissionado pela galeria brasileira Coletivo Amor de Madre para a feira Guild em Cape Town, e apresentado no Spazio Rossana Orlandi durante o Salone del Mobile, em abril, o projeto Less Catenary Pottery Printer é um belo insight nesta direção. O grupo criou o aparato para a produção de objetos em cerâmica com base no mesmo sistema de uma impressora 3D – mas no caso deles, é tudo analógico. A impressora do gt2p também possui os três eixos XYZ (que permitem criar a forma volumosa), mas eles se deslocam manualmente. Assim, o controle numérico digital é substituído por um controle numérico analógico – cada eixo é mais ou menos como uma régua. Neles, são ancorados pedaços de tecidos que formam a cama que recebe a porcelana líquida. À medida que esta vai escorrendo por entre as fibras do tecido e secando, gera-se a forma afunilada de uma tigela (pense, por exemplo, no pó que sobra dentro do coador de café).
Como com as impressoras 3D, cada peça pode ser única, basta mudar a posição onde o tecido está pendurado, sempre dentro dos parâmetros matemáticos de cada eixo, e alterar outras variáveis. “É possível articular os variantes físicos em tempo real”, diz o estúdio, que cita, entre elas, a gravidade, o peso do fluido, a tensão, tamanho e material do tecido, o tempo de secagem, a viscosidade da cerâmica, etc. Em Milão, foram criados, ao longo dos dias de exposição, recipientes usando três tipos de tecido (gaze, musseline e lycra) e dois tipos de cerâmica (grés e porcelana translúcida).
“Isso faz parte de uma pesquisa sobre como criar máquinas padronizadas que geram resultados não-padronizados, sugerindo que o desenho paramétrico não é necessariamente uma metodologia de computação digital”, coloca o estúdio. O projeto constroi uma ponte entre dois universos que poderiam se contrapor, e abre portas para se pensar em muitos aspectos dentro da discussão do futuro da fabricação – mostrando, talvez, que este reside não em uma ou outra ponta, mas no intermédio entre elas; na integração que gera processos e produtos inteiramente novos.

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Adri

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